26 fevereiro, 2007

O princípio da Racionalidade

Racionalidade é ter na razão a única fonte de conhecimento e agir de acordo com o que se sabe através dela. A razão não se trata apenas de usar a lógica, mas sim usá-la com o material correto: conhecimento conceitual construído através da Epistemologia correta.

A racionalidade não é apenas pensar corretamente, mas principalmente ter na razão o único guia para a ação. O exímio pensador que age com base em surtos de emoção não possui a virtude da Racionalidade. Isto não significa que as pessoas devem ser frias e sem emoção, significa que devem reconhecer as emoções que têm, entender suas causas e agir com base no entendimento. Um próximo artigo explorará em mais detalhe as emoções, sua natureza e seu papel na vida de um ser racional.

Exercer a razão não é automático, requer vontade e esforço. Ao se deparar com uma decisão a tomar, a pessoa racional busca conhecer o problema, entender as conseqüências de cada uma de suas alternativas e agir de forma a gerar as conseqüências que lhe são mais favoráveis.

As emoções são automáticas, estão sempre disponíveis. Ao se deparar com uma decisão a tomar, a pessoa emotiva reage imediatamente tomando a ação que sente ser correta.

As reações emotivas, por não serem baseadas na avaliação completa dos efeitos de uma decisão, em geral produzem efeitos gratificantes no curtíssimo prazo – em geral uma gratificação também emocional – enquanto ocultam outras conseqüências que a pessoa provavelmente preferiria evitar, e evitaria se tivesse pensado a respeito. Para alguns pode ser emocionalmente satisfatório quebrar o nariz do desgraçado que xingou sua mãe no estádio, mas a decisão não parece tão boa quando debaixo do cassetete dos policiais – conseqüência previsível por quem parou para pensar.

A característica principal, portanto, de quem vive com Racionalidade é agir sempre com base no conhecimento e em busca dos melhores resultados no longo prazo. Isto não significa que nunca será escolhido um caminho que represente um benefício imediato com um custo prolongado – como fazer um financiamento. Significa que quando uma decisão como esta for tomada será porque, consideradas todas as conseqüências, decidiu-se que o benefício imediato vale o custo no longo prazo. Isto também é buscar o melhor resultado no longo prazo.

Ao mesmo tempo em que rejeita a ação baseada na emoção, a Racionalidade rejeita a ação baseada na fé. Quem é racional não faz algo tendo fé que dará certo, faz algo sabendo que dará certo – ou sabendo que dentre as alternativas, esta é a que tem a melhor chance de lhe trazer benefício. Quem é racional não faz “pensamento positivo”, toma todas as ações ao seu alcance para que seus objetivos sejam alcançados e não se engana em relação aos riscos que corre.

A Racionalidade, portanto, é agir com base no conhecimento – em todas as coisas. Ela demanda o esforço constante de pensar e entender. Demanda a virtude da Independência, pois só através do próprio entendimento é possível saber que uma decisão é correta. Demanda a virtude da Honestidade, pois só lidando com a verdade em sua totalidade é possível conhecer as reais conseqüências de uma ação.

A recompensa da Racionalidade é ser uma pessoa eficaz, que alcança seus objetivos por agir como a realidade demanda para tal. A conseqüência da Racionalidade é viver a melhor vida possível, no longo prazo. Na Ética a racionalidade é a virtude primária, pois é essencial para a vida do ser humano.

16 fevereiro, 2007

Fé e religião

Never argue with an idiot, he'll just drag you down and beat you with
experience.
Recentemente Rodrigo Constantino, um escritor, colunista e blogueiro defensor do liberalismo, gerou uma enorme controvérsia no que se passa por círculo intelectual de “direita” aqui no Brasil. A causa foi a publicação de uma série de artigos sobre religião em seu blog iniciada por “O Túmulo do Fanatismo”, em que apresenta uma série de objeções de Voltaire ao Cristianismo e faz alguns comentários a respeito. O filósofo Olavo de Carvalho, editor do site Mídia Sem Máscara – um dos principais sites conservadores do país – retrucou com severidade, e com pesadas ofensas pessoais.

Não pretendo discutir aqui a honestidade intelectual de Olavo de Carvalho, que além de ser infantilmente desrespeitoso (a exemplo do que ocorreu quando se desentendeu com Janer Cristaldo, outro articulista liberal e ateu), também utilizou diversos subterfúgios argumentativos além do ad hominem. O foco deste artigo é descer à essência do erro cometido por Constantino que permitiu a Olavo de Carvalho uma réplica que para o leigo parece ser devastadora e, em contrapartida, explorar como a fé de Olavo de Carvalho mina todo seu vasto conhecimento factual.

O erro de Rodrigo Constantino ao abordar a religião listando, através de Voltaire, as contradições presentes na doutrina Cristã é o de levar o debate para os particulares, deixando de lado o fato de que o problema fundamental está nos princípios. A Igreja tem milênios de experiência nestes debates. Como o próprio Olavo de Carvalho salientou em sua resposta, a doutrina Católica é fruto de séculos de discussões em que milhares de teólogos decidiram o que seria verdade. Como mais um debatedor de particularidades, Rodrigo Constantino certamente é irrelevante – e Olavo usa seu vasto conhecimento para deixar isto claro.

As contradições internas da doutrina religiosa, as contradições entre o que as religiões pregam e o que é necessário para viver neste planeta, as contradições entre as doutrinas religiosas e a realidade são todas provenientes da mesma fonte. Enquanto enumerá-las é um bom artifício para desafiar as pessoas a pensar a respeito, um argumento contra a religião precisa atacar a raiz de todos os males: a fé.

A religião se distingue da ciência pela fé. A fé é a crença sem evidência, por definição a antítese da razão. Se há provas de algo, não é preciso ter fé para sabê-lo. Se não há provas, não importa o quanto se queira nada tornará aquela crença racionalmente justificada. Ter fé é aceitar o arbitrário.

Aquilo que se sabe, baseado em evidência, é conhecimento – este é o âmbito da razão. Aquilo que se acredita, baseado apenas na fé, é crença – neste âmbito a razão é impossível. É claro que se usa a lógica no debate religioso, mas isto não quer dizer que se está usando a razão. A racionalidade requer usar o método correto – a lógica – e o material correto – o conhecimento factual sobre a existência. O único argumento necessário contra a religião é este: a religião exige a fé, exige aceitar o arbitrário. É impossível viver neste mundo baseado em coisas que só existem na imaginação. Mesmo que milhões acreditem nelas.

As contradições internas na doutrina religiosa têm esta fonte. Como toda a doutrina é baseada na imaginação – e não em fatos reais – basta que uma idéia seja interpretada de forma diferente por dois religiosos para gerar uma contradição. Como não existe realidade para servir como referência, é impossível dizer que um está certo e outro errado. A única solução é que alguma autoridade decida quem está certo – arbitrariamente.

Com o conhecimento racional qualquer conflito é arbitrado pela realidade, mesmo que no momento da discussão pareça incerto quem tem razão. Na metade do século passado o debate sobre qual sistema político-econômico era ideal para o desenvolvimento humano confrontava socialistas e capitalistas. Hoje, mesmo quem não entende os argumentos que mostram ser o Capitalismo o único sistema consistente com a vida humana digna tem à disposição o juízo da realidade: a ruína da URSS.

As contradições entre a doutrina religiosa e o que é necessário para viver no mundo real também têm esta fonte. Como a doutrina é baseada na fé, não é de surpreender que conflite com a realidade. A doutrina cristã demanda a pobreza, mas a vida requer a constante produção de riqueza. A doutrina cristã requer que se ame seu inimigo, mas quem ama seus inimigos acaba destruído por eles. A doutrina cristã requer acreditar que se é moralmente corrupto por natureza, mas a vida requer auto-estima e integridade.

O pensamento racional não incorre nestas contradições, pois se ancora na realidade. Identificar a natureza real do homem – um ser que sobrevive criando os bens materiais que precisa – permite saber que a riqueza é seu estado desejável e moralmente louvável. A concepção racional dos direitos do homem – a liberdade para exercer sua mente e colher os frutos de seu trabalho – permite o conceito de justiça: que os inimigos merecem ser combatidos. O conhecimento das realizações humanas permite ver o homem como é: um ser heróico, produtivo, vencendo a natureza para perseguir sua própria felicidade.

É por este motivo que a fé de Olavo de Carvalho desqualifica toda sua erudição. De que vale saber citar centenas de autores e pensadores se seu próprio pensamento está fundamentado no arbitrário? De que adianta defender política econômica liberal calcando a em uma religião que demanda pobreza, sacrifício e colocar o outro acima de si mesmo? A ruína do conservadorismo nos Estados Unidos – onde a direita religiosa implanta políticas socialistas que a esquerda não se atreveria a propor – é evidência suficiente da conseqüência de defender as idéias certas pelos motivos errados.

Não é preciso conhecer todos os teólogos, filósofos e outros místicos para saber a verdade sobre a religião. Não é preciso conhecer todas as maneiras de errar para acertar. Basta reconhecer a fé pelo que ela é, a rejeição da razão, e manter a mente livre deste veneno.